Paróquia de Sant'Ana --------------------------------------
A origem da cidade de
Caicó/RN

É muito difícil, o saber-se, com certeza, a origem da cidade de Caicó, por causa do emaranhado de lendas em que está envolvida a sua história. Tenho lido vários trabalhos a esse respeito, e cada um descreve, de modo diferente, o início da habitação desta região do Seridó.

Indagado dos velhos da cidade, pude colher várias lendas, aliás, todas já bem conhecidas dos nossos historiógrafos, mas que passo a descrever, de novo, por ter sido o trabalho de ir buscá-las na cabeça dos Caicoenses que mais contaram. Pude ver, entretanto, que se tratava de uma mesma história, contada de vários modos.

Assim me falou um:

No lugar onde é hoje a cidade de Caicó, o que havia era só mofumbo... Mas, certa vez, durante a seca, apareceu por aí um fazendeiro de jardim de Piranhas, procurando um touro que havia, há dias, desaparecido do curral. E nesta mesma mata de mofumbos, deu com ele, mas o animal parecendo um demônio marchou furioso, para derrubar o cavaleiro, e o seu cavalo. O vaqueiro correu apavorado, fugindo à perseguição do touro; lembrando-se, porém, na aflição, de promoter uma Capela a Sant’Ana no lugar onde o touro o abandonasse. E olhando para traz, viu que o animal seguira outro caminho, desaparecendo.

O fazendeiro voltou ao sítio de Jardim de Piranhas e, expondo o ocorrido aos trabalhadores, estes se prontificaram de construir a capela, exatamente onde está, hoje, a Catedral de Caicó. Construída a Capela, foi fácil, mais tarde, aparecem as habitações que deram início à atual cidade.

Outro contou-me a história diferente.

Disse que este fazendeiro vinha das bandas de Acari, e não de Jardim de Piranhas. E que, perdido no intricado mofumbal existente à margem do rio Seridó, sem acertar com a saída, ajoelhou-se e prometeu a Sant’Ana de construir-lhe uma Capela naquele lugar, caso conseguisse encontrar, novamente, o caminho. E assinalou, com uma cruz, o local da promessa. Montou-se. O cavalo, de rédeas, soltas, conduziu-o por uma vereda, que, antes não descobrira, até a estrada que seguia para o Acari.

Voltando dias depois o fazendeiro rico mandou construir a Capelinha.
Ouvi. Ainda, uma terceira narração. Mas como fosse uma espécie de mistura das duas, preferi ficar com estas que nos deixam compreender ter sido um boi o causador da fundação da cidade.

Encontrei na DENOMINAÇÃO DOS MUNICIPIOS, de Manuel Dantas, uma outra origem da cidade e sobre esta não pude conseguir informações.

Transcrevo-a:

“Quando o sertão era virgem, a tribo dos Caicós”, célebre pela sua ferocidade, julgava-se invencível, porque Tupan vivia ali, encarnado num touro bravio, que habitava um intricado mofumbal, existente no local, onde está, hoje, situada a cidade de Caicó.
Destroçada a tribu, permaneceu intacto o misterioso mofumbal, morada de um deus, mesmo selvagem.

Certo dia, um vaqueiro inexperto penetrado no mofumbal, viu-se, de repente, atacado pelo touro sagrado que iria, indubitavelmente, matá-lo. Rapidamente inspirado, o vaqueiro fez o voto a N. S. (sic!) Sant’Ana de construir ali uma Capela, se o livrasse de tamanho perigo. Como por encanto, o touro desapareceu.

O vaqueiro destruiu a mata e iniciou, logo, a construção da Capela.

A tradição oral de Caicó não me falou acerca desta tribu. Entretanto, é uma realidade a habitação daquela zona pelos Caicós, que deram nome ao lugar.

Caicó começou, então, como se vê, pela construção da sua Capela. Enquanto os anos se passavam, casas se iam edificando em torno, já porque muitos queriam ver a Capela do fazendeiro que fora salvo, milagrosamente, por Sant’Ana, já porque o local atraía pela fecundidade do terreno com água de dois rios que serpeavam à pouca distância.

Depois que a Capela fora transformada numa Igreja e começou a aumentar o número de habitantes, as casas se foram erguendo mais sólidas e em alinhamento, sendo que a primeira rua construída foi a Rua da Matriz que antigamente se chamou Marquês de Herval.

Texto extraído do livro
Caicó de autoria do Mons.
Eymard L’Éraistre Monteiro
Ed.1945

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