É
muito difícil, o saber-se, com certeza, a origem
da cidade de Caicó, por causa do emaranhado de
lendas em que está envolvida a sua história.
Tenho lido vários trabalhos a esse respeito, e
cada um descreve, de modo diferente, o início da
habitação desta região do Seridó.
Indagado dos velhos da cidade, pude colher várias
lendas, aliás, todas já bem conhecidas dos
nossos historiógrafos, mas que passo a descrever,
de novo, por ter sido o trabalho de ir buscá-las
na cabeça dos Caicoenses que mais contaram. Pude
ver, entretanto, que se tratava de uma mesma história,
contada de vários modos.
Assim me falou um:
No lugar onde é hoje a cidade de Caicó,
o que havia era só mofumbo... Mas, certa vez, durante
a seca, apareceu por aí um fazendeiro de jardim
de Piranhas, procurando um touro que havia, há
dias, desaparecido do curral. E nesta mesma mata de mofumbos,
deu com ele, mas o animal parecendo um demônio marchou
furioso, para derrubar o cavaleiro, e o seu cavalo. O
vaqueiro correu apavorado, fugindo à perseguição
do touro; lembrando-se, porém, na aflição,
de promoter uma Capela a Sant’Ana no lugar onde
o touro o abandonasse. E olhando para traz, viu que o
animal seguira outro caminho, desaparecendo.
O fazendeiro voltou ao sítio de Jardim de Piranhas
e, expondo o ocorrido aos trabalhadores, estes se prontificaram
de construir a capela, exatamente onde está, hoje,
a Catedral de Caicó. Construída a Capela,
foi fácil, mais tarde, aparecem as habitações
que deram início à atual cidade.
Outro contou-me a história diferente.
Disse que este fazendeiro vinha das bandas de Acari, e
não de Jardim de Piranhas. E que, perdido no intricado
mofumbal existente à margem do rio Seridó,
sem acertar com a saída, ajoelhou-se e prometeu
a Sant’Ana de construir-lhe uma Capela naquele lugar,
caso conseguisse encontrar, novamente, o caminho. E assinalou,
com uma cruz, o local da promessa. Montou-se. O cavalo,
de rédeas, soltas, conduziu-o por uma vereda, que,
antes não descobrira, até a estrada que
seguia para o Acari.
Voltando dias depois o fazendeiro rico mandou construir
a Capelinha.
Ouvi. Ainda, uma terceira narração. Mas
como fosse uma espécie de mistura das duas, preferi
ficar com estas que nos deixam compreender ter sido um
boi o causador da fundação da cidade.
Encontrei na DENOMINAÇÃO DOS MUNICIPIOS,
de Manuel Dantas, uma outra origem da cidade e sobre esta
não pude conseguir informações.
Transcrevo-a:
“Quando o sertão era virgem, a tribo dos
Caicós”, célebre pela sua ferocidade,
julgava-se invencível, porque Tupan vivia ali,
encarnado num touro bravio, que habitava um intricado
mofumbal, existente no local, onde está, hoje,
situada a cidade de Caicó.
Destroçada a tribu, permaneceu intacto o misterioso
mofumbal, morada de um deus, mesmo selvagem.
Certo dia, um vaqueiro inexperto penetrado no mofumbal,
viu-se, de repente, atacado pelo touro sagrado que iria,
indubitavelmente, matá-lo. Rapidamente inspirado,
o vaqueiro fez o voto a N. S. (sic!) Sant’Ana de
construir ali uma Capela, se o livrasse de tamanho perigo.
Como por encanto, o touro desapareceu.
O vaqueiro destruiu a mata e iniciou, logo, a construção
da Capela.
A tradição oral de Caicó não
me falou acerca desta tribu. Entretanto, é uma
realidade a habitação daquela zona pelos
Caicós, que deram nome ao lugar.
Caicó começou, então, como se vê,
pela construção da sua Capela. Enquanto
os anos se passavam, casas se iam edificando em torno,
já porque muitos queriam ver a Capela do fazendeiro
que fora salvo, milagrosamente, por Sant’Ana, já
porque o local atraía pela fecundidade do terreno
com água de dois rios que serpeavam à pouca
distância.
Depois que a Capela fora transformada numa Igreja e começou
a aumentar o número de habitantes, as casas se
foram erguendo mais sólidas e em alinhamento, sendo
que a primeira rua construída foi a Rua da Matriz
que antigamente se chamou Marquês de Herval.
Texto
extraído do livro
Caicó de autoria do Mons.
Eymard L’Éraistre Monteiro
Ed.1945